segunda-feira, 9 de novembro de 2009

A Conquista da Felicidade: Os Contributos da Sabedoria Antiga e da Ciência Moderna, de Jonathan Haidt

A ciência da felicidade

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Fundamentalmente, a felicidade consiste na entrega activa a projectos com valor objectivo.
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Na verdade, este livro fornece uma importante pista para uma explicação evolucionista das religiões: se as religiões captam verdades psicológicas importantes sobre a felicidade, ainda que parcialmente, e com muitas falsidades à mistura, como é natural nas coisas humanas, então não é de espantar que exerçam um apelo tão grande sobre tantas pessoas (apesar de 16% da população mundial se declarar não religiosa).

O segundo capítulo, "Mudar de Ideias", explora a importância de saber interpretar correctamente o mundo e nós mesmos. Parte da infelicidade resulta de modos errados de interpretar as coisas, e é por isso que a chamada psicologia cognitiva tem bastante sucesso, nomeadamente no combate a certos tipos de depressão. O que se passa é que em certas situações nos tornamos infelizes porque entramos numa espiral autodestrutiva de pensamentos subtilmente errados sobre nós mesmos e os outros — pensamentos que nos deprimem cada vez mais. Conseguir "apanhar" e neutralizar esses pensamentos, reconhecendo que são pura e simplesmente exageros e interpretações erradas das coisas, é um passo fundamental para a felicidade.
Outro elemento fundamental para a felicidade é a reciprocidade, que o autor explora no terceiro capítulo. Como muitas outras espécies, os seres humanos são gregários e ter laços de confiança e amizade com outras pessoas é uma parte importante da felicidade. Todos temos também intuitivamente uma imagem muito ampliada de nós mesmos — somos os mais espertos da faculdade, os vizinhos com mais civilidade, os amigos mais leais e os colegas mais profissionais. Evidentemente, isto é treta. E em certos casos pode ser uma treta que nos faz infelizes porque nos obriga a autênticas acrobacias interpretativas para negar a realidade — que agimos mal, que há pessoas melhores do que nós, que nem sempre estamos à altura dos padrões que nós mesmos defendemos. A vaidade faz-nos infelizes e o realismo sobre nós mesmos ajuda-nos a viver de forma descontraída e sem ansiedades.
O aspecto objectivista da felicidade será um dos mais surpreendentes para o leitor comum. Vivemos numa era voltada para a vida privada e subjectiva, erigida em valor absoluto. Contudo, o autor defende que esta é uma ilusão contemporânea: sem preocupações mais alargadas, que ultrapassem as fronteiras imediatas do eu, da família e dos amigos mais próximos, dificilmente se pode ser genuinamente feliz. A felicidade, afinal, não vem realmente toda de dentro — vem também da entrega ao mundo. E, mais surpreendente ainda, a virtude — agir correctamente e não de forma egoísta ou interesseira ou amoral — é também um dos elementos fundamentais da felicidade. Afinal, uma das rotas para a felicidade é procurar contribuir genuinamente para a felicidade dos outros.

Desidério Murcho

Originalmente publicado no jornal Público (18 de Março de 2007)

Retiradas partes de http://criticanarede.com/html/lds_happiness.html

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